"A medida do amor é amar sem medida" Santo Agostinho

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Charge de Maurício ricardo


Plínio Arruda Sampaio

http://charges.uol.com.br/2010/09/30/cotidiano-grandes-debates-da-historia/

Ah! O amor 02


“O amor é o descanso da loucura.” Guimarães Rosa
“Com o amor vivi mais loucura que descanso, mas o aprendizado tem que começar em algum ponto.” Cristina Guerra
Frases interessante, curtas, mas dizem mais coisas do que de fato querem dizer. Tirando por mim, também acho que existe um pouco de loucura no amor. A necessidade do outro, que antes era apenas um amigo e nem queríamos ver tanto assim. O frio na barriga, o medo de perder, as loucuras ditas, as loucuras feitas. Os micos, o próprio amor. Ruim é quando acaba. Pra quem vai, cartas com tanto significado, ficam sem nexo. Para quem fica, “como aquelas palavras tão sinceras perderam o significado?” de início, até achamos “o amor não existe mais para mim!” Melodramático, mas é o que se sente. Depois passa, aliás, tudo passa com o tempo. E o que fica é o aprendizado (para quem é inteligente e consegue extrair coisas boas e aprendizado das coisas difíceis). E por passe de mágica a gente se esquece e... Acontece de novo, como dizem os americanos: caímos de amores. A pesar de tudo, que bom que existe esse tipo de loucura.

A lista


Conheci Liverton quando tinha dezesseis anos. Nunca tinha tido namorado e parte isso eu devia ao fato do meu pai ser muito “cuidadoso”. Interessamos-nos um pelo outro e ficamos algumas vezes, percebendo o jeito do meu pai, Liverton foi logo conversar com ele, para namorar em casa (coisa antiga né? Bom, mas na minha família sempre foi assim). Marcamos o dia, minha mãe fez um jantar, e chegou o momento. Cara, meu pai tinha se preparado durante o dia inteiro para aquele momento. Sua filhinha iria arrumar um namorado? Como assim? Ele preparou, numa folha de ofício uma lista com mais de vinte questões que incluía perguntas como: quais são suas intenções com minha filha? e até: você por ventura gasta seu dinheiro com mulheres da vida? Meus quatro irmãos e eu todos no quarto, escondidos atrás da cortina escutando a conversa e se acabando de ri. Meu pai contou todas as minhas desobediências (acho que ele tava tentando fazer ele fugir. E não sei como ele não fugiu mesmo). A cena era a lá O pai da noiva. Muito engraçado. Mas só duramos uns três meses, fico pensando: será que meu pai teve alguma coisa a ver com isso? (rsrsrs).

Eu sorri


Glauco. Doçura. Out./1987. p. 80.

O que tenho lido


CHAVES DA VAGUIDÃO
Era um bar da moda naquele tempo em Copacabana e eu tomava
meu uísque em companhia de uma amiga. O garçom que nos servia,
meu velho conhecido, a horas tantas se aproximou:
— Não leve a mal eu sair agora, que está na minha hora, mas o
meu colega ali continuará atendendo o senhor.
Ele se afastou, e eu voltei ao meu estado de vaguidão habitual.
Alguns minutos mais tarde, vejo diante de mim alguém que me
cumprimentava cerimoniosamente, com um movimento de cabeça:
— Boa noite, Dr. Sabino.
Era um senhor careca, de óculos, num terno preto de corte meio
antigo. Sua fisionomia me era familiar, e embora não o identificasse
assim à primeira vista, vi logo que devia se tratar de algum advogado ou
mesmo desembargador de minhas relações, do meu tempo de escrivão.
Naturalmente disfarcei como pude o fato de não estar me lembrando de
seu nome, e me ergui, estendendo-lhe a mão:
— Boa noite, como vai o senhor? Há quanto tempo! Não quer
sentar-se um pouco?
Ele vacilou um instante, mas impelido pelo calor de minha
acolhida, acabou aceitando: sentou-se meio constrangido na ponta da
cadeira e ali ficou, erecto, como se fosse erguer-se de um momento para
outro. Ao observá-lo assim de perto, de repente deixei cair o queixo: sai
dessa agora, Dr. Sabino! Minha amiga ali ao lado, também boquiaberta,
devia estar achando que eu ficara maluco.
Pois o meu desembargador não era outro senão o próprio garçom
— e meu velho conhecido! — que nos servira durante toda a noite e que
havia apenas trocado de roupa para sair. (...)
Fernando Sabino. A falta que ela me faz. 4. ed.
Rio de Janeiro, Record, 1980. p. 143-4. [pg. 67]

O NARIZ, Luiz Fernando Veríssimo


Era um dentista, respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos
anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem
opiniões surpreendentes mas uma sólida reputação como profissional e
cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o
susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles
narizes de borracha com óculos de aros pretos, sobrancelhas e bigodes
que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso
dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa do
almoço — sempre almoçava em casa — com a retidão costumeira,
quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.
— O que é isso? — perguntou a mulher depois da salada, sorrindo
menos.
— Isto o quê?
— Esse nariz.
— Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.
— Logo você, papai...
Depois do almoço, ele foi recostar-se no sofá da sala, como fazia
todos os dias. A mulher impacientou-se.
— Tire esse negócio.
— Por quê?
— Brincadeira tem hora.
— Mas isto não é brincadeira.
Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora,
levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou.
— Aonde é que você vai?
— Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.
— Mas com esse nariz?
— Eu não compreendo você — disse ele, olhando-a com censura
através dos aros sem lentes. — Se fosse uma gravata nova você não
diria nada. Só porque é um nariz...
— Pense nos vizinhos. Pense nos clientes.
Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha.
Deram risadas (“Logo o senhor, doutor.”), fizeram perguntas, mas
terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.
— Ele enlouqueceu?
— Não sei — respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há
15 anos. — Nunca vi ele assim.
Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de
dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.
— Você vai usar esse nariz na cama? — perguntou a mulher.
— Vou. Aliás, não vou mais tirar este nariz.
— Mas, por quê?
— Por que não?
Dormiu logo. A mulher passou a metade da noite olhando para o
nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele
enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante,
uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz
postiço.
— Papai...
— Sim, minha filha.
— Podemos conversar?
— Claro que podemos.
— É sobre esse seu nariz...
— O meu nariz, outra vez? Mas vocês só pensam nisso?
— Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para
outra um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer
que ninguém note?
— O nariz é meu e vou continuar a usar.
— Mas, por quê, papai? Você não se dá conta de que se
transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os
vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.
— Não tem porque não quer...
— Como é que ela vai sair na rua com um homem de nariz
postiço?
— Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai.
Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma
diferença.
— Se não faz nenhuma diferença, então por que usar?
— Se não faz diferença, por que não usar?
— Mas, mas...
— Minha filha...
— Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!
A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A
recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não
sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava
aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os
amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o
convenceram a consultar um psiquiatra.
— Você vai concordar — disse o psiquiatra, depois de concluir que
não havia nada de errado com ele — que seu comportamento é um
pouco estranho...
— Estranho é o comportamento dos outros! — disse ele. — Eu
continuo o mesmo. Noventa e dois por cento do meu corpo continua o
que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de
me comportar. Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom
pai, contribuinte, sócio do Fluminense, tudo como antes. Mas as pessoas
repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de
borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?
— É... — disse o psiquiatra. — Talvez você tenha razão...
O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não
se entregou. Continua a usar nariz postiço. Porque agora não é mais
uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.
Luis Fernando Veríssimo. O analista de Bagé.
28. ed. Porto Alegre, L&PM, 1981. p. 39-42.

O amor, para alguns, envelhece


Tenha estado muito interessada em Clarice Lispector. A maneira, o que e como ela escreve. Esses dias, lendo um conto sobre galinhas, Uma História de Tanto Amor, achei muito interessante a maneira simples que ela consegue falar de como o amor que sentimos vai mudando com o passar dos anos. O primeiro amor, sentido de uma maneira completa, entregue, total. Com as desilusões amorosas e o passar dos anos o amor fica tímido, medroso, é medo de sofrer. Isso fica a mostra quando ela diz “dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor”. Acredito que a gente não deveria guardar as coisas assim não, deixar de viver um amor completo porque outro anterior me fez sofrer. Deixar o exagero de lado, as loucuras e ficar comedido. Não! É chato! Eu, às vezes, demoro a esquecer mais esqueço principalmente porque é muito bom amar completamente sem amarras do passado e mesmo que elas existam, o bom é pensar nelas com carinho, esquecendo as mágoas.